Vamos falar sobre a pandemia na Índia?

por Roberto

É complicado escrever sobre a situação por aqui, porque cada vez que terminamos o texto, tudo já está diferente. Hoje é sábado, 23 de maio, e  já estamos na quarta fase do maior lockdown em vigor no planeta.

Não vamos falar sobre os números aqui, mas independente da margem de subnotificação que é inevitável num país com 1.3 bilhão de habitantes, os resultados estão sendo bem positivos até agora. A Índia começou cedo com as precauções: no final de janeiro já estavam tirando a temperatura de todas as pessoas vindas da China, logo proibiu os voos vindos de lá e na sequência suspendeu a emissão de novos vistos para estrangeiros. Quando atingiu 500 casos confirmados de infeção e as 10 primeiras mortes, o Primeiro Ministro decretou um lockdown geral no país, afetando 1/6 da população do planeta. Os números continuaram crescendo, mas num ritmo muito inferior aos países europeus e americanos.

A cronologia é a seguinte: no dia 24 de março foi decretado o primeiro lockdown que duraria 3 semanas, com paralisação completa dos fluxos e dos deslocamentos. Estradas foram bloqueadas e ninguém mais poderia entrar ou sair da cidade sem autorização. A segunda fase foi do dia 15 de abril até 3 de maio, com algumas flexibilizações (agricultura e algumas indústrias consideradas essenciais, com redução no quadro de funcionários, voltaram a funcionar). A terceira fase começou no dia 4 de maio e supostamente termina hoje. Neste período, a Índia foi dividida em 733 zonas, classificadas pelas cores verde, laranja e vermelha, de acordo com o número de casos conformados. As zonas verdes e laranjas foram as que demonstraram menor taxa de proliferação do vírus e já tiveram flexibilizações significativas, como a volta de alguns comércios e outros serviços, respeitando restrições e mantendo o distanciamento social.

No dia 18, entramos no lockdown 4.0, onde as estradas foram abertas e alguns trens especiais estão circulando. Os aeroportos seguem fechados e não há voos domésticos nem internacionais. Carros, ônibus, tuktuks e motos estão liberados para transitar, porém com restrições. Templos, estádios e eventos ainda estão suspensos, o uso de máscara é obrigatório e o distanciamento social segue recomendado como se fosse um mantra.

No dia 31 de maio está prometida a suspensão do lockdown, se os números de casos confirmados se estabilizar. Oremos para que Shiva, Brahma, Vishnu e todos seus avatares dêem uma forcinha para as notícias sejam as melhores possíveis.

Em época de Covid19, você sabe qual a diferença entre Distanciamento social, Isolamento, Quarentena e Lockdown? Se ainda não sabe, aí vai um resumão:

DISTANCIAMENTO SOCIAL

Esta é uma atitude voluntária e que depende da boa vontade de cada um. O Covid19 não é um vírus que se espalha pelo ar, ele se espalha através de gotículas expelidas por uma pessoa contaminada (a duplinha Espirro & Perdigoto). Segundo especialistas, 1,5 metro de outra pessoa já é uma distância segura. Para aquelas pessoas que falam cuspindo, uns 4 metros são suficientes. Ah, e como muitas pessoas podem estar assintomáticas (contaminadas com o vírus sem apresentar sintomas e espalhando loucamente por aí), o uso de máscara é fundamental nesta hora. Nesta fase, pega mal participar de festinhas, eventos esportivos, culturais e religiosos. Recomenda-se evitar aglomerações e apinhamentos em geral, mas não há aplicação de multa ou detenção.

ISOLAMENTO

Esta também é uma atitude voluntária para evitar a propagação do vírus, para pessoas que foram contaminadas ou estão com suspeita. Gente que teve contato com pessoas contaminadas, que passou (ou viajou) por locais altamente infectados. A recomendação médica é de 14 dias, tempo suficiente para saber se o vírus vai ou não se manifestar no corpitcho. Como ninguém vai controlar o que você fez ou deixou de fazer, o importante nessa hora é ter um pouco de noção, e saber que você involuntariamente pode ser um agente de propagação. Pode ser feito em casa (ou num hospital), então se você não trabalha em atividades essenciais, aproveite seu sofá para maratonar o Mahabharata, ler o Bhagavad Gita ou assistir uns filmes de Bollywood, com 3 horas cada.

QUARENTENA

Aqui a coisa começa a ficar séria e já não depende tanto da boa vontade do cidadão. Para evitar a propagação de casos potenciais, a circulação de pessoas fica restrita a uma área e um horário determinados pelos órgãos oficiais, como Secretarias de Saúde do Estado ou Município, em um ato administrativo. Geralmente o prazo é de 14 a 40 dias e pode haver punições como multas e advertências para os mais cabeça-duras. Sabia que aqui na Índia teve até policiais ensinando yoga no meio da rua para os infratores da quarentena?

LOCKDOWN

É quando o bicho pega de verdade. Lockdown é uma paralisação completa dos fluxos e dos deslocamentos. Medida drástica pra chuchu, onde carros, trens, tuktuks, metrôs, aviões têm circulação reduzida e as pessoas só podem sair de casa com autorização ou para comprar comida e remédios. Nesta fase, o governo pode até usar a polícia e o exército para prender e multar os infratores. O principal objetivo de um lockdown é evitar que as pessoas se encontrem e se desloquem de uma área para outra, transportando e espalhando o vírus para outras regiões. Com tudo fechado, a consequência também é uma paralisia econômica no país.

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Não sabemos como ficará o turismo este ano. Aliás, se alguém disser que sabe, estará mentindo. O que sabemos é que adaptações serão feitas e teremos que aprender a lidar com uma nova situação muito em breve. Se todomundo fizer a sua parte, ficando em casa, cuidando de si e dos outros, logo logo esta pandemia estará sob controle e poderemos pegar nossos passaportes para explorar esse mundão tão fascinante. Estamos morrendo de saudade das buzinas e da muvuca das ruas.